Fui assistir ontem ‘A Origem’ ultimo filme do diretor Christopher Nolan. Mas fui meio que ressabiado pelo extremo hype que esta rolando em cima do filme. Chris Nolan é sim um tremendo diretor, gosta de tramas intrincadas, evita maniqueismos e dirige atores como poucos. Mas tudo isso vale o que dizem sobre o filme?
Aqui vou escrever o que achei do filme e haverá spoilers, fique avisado.
Primeiro: o filme é bem divertido, as 2:30 de projeção passam rapido, o elenco estelar esta muito bem, fotografia excelente e uma trilha sonora, do Hans Zimmer, que é o que dá ritmo ao filme. Acho que isso já é o suficiente para levar qualquer um ao cinema certo? Para que imputar genialidade no que é banal?
Sim banal, pois não passa de um filme padrão de ‘golpe’, com todos os clichês que isso implica. A diferença é que colocaram pitadas de ficção, calcado absurdamente em Matrix e em todas as referencias roubadas para criação de Matrix. Fiquei aguardando alguém dizer “There is no spoon”. Chris Nolan diz que tem o roteiro na gaveta fazia 10 anos, Matrix foi aos cinemas em 1999. Na minha opinião não dá para negar a ‘homenagem’.
Mas enfim: o exercito dos EUA criou um dispositivo/meio/sistema para que militares treinassem dentro de suas próprias mentes, eliminando assim os riscos que treinamentos de campo implicam. Junto com isso eles precisavam de arquitetos (literalmente) que desenhassem o mundo onde a ação ocorreria (mais ou menos o que JK pediu a Niemeier e Lucio Costa: criar do nada, no meio do nada, uma cidade como nenhuma outra. Deu no que deu).
Obvio que uma coisa assim, cheia de luz e uma certa magia, iria ser usada para o crime. Afinal chegar em alguém, seda-lo, acessar o subconsciente onde os segredos o deixam de ser, parece uma coisa bacana e limpa a se fazer. E de acordo com a logica do filme é ainda mais simples descobrir os segredos de alguém se no sonho o arquiteto colocar uma caixa forte, onde como por magia, tudo que é mais secreto fica guardado (imagine isso no caso dos bispos de Boston. Teríamos crianças o suficiente para começar a produzir para as empresas de material esportivo).
Isso em geral se tornou ‘bem simples’, uma arte que Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt, o eterno Tommy de 3rd Rock from the Sun) dominam. Tirando um problema aqui, um passado perturbador acolá, tudo corre bem. E devido a um desses passados, o de Cobb, é que tudo tem inicio.
Cobb é muito bom no que faz, mas não pode ir para casa, nos EUA e ver os filhos. Tudo porque ele é acusado de ter matado sua mulher Mal (a sempre linda – exceto em Piaf – Marion Cotillard). O que de fato é verdade, apesar de ele não ter tido ação direta na morte dela. E então um poderoso empresário, Saito (interpretado pelo sempre competente Ken Watanabe), oferece a ele a oportunidade de ter sua ficha limpa e poder rever os filhos. Mas para isso em vez de roubar um segredo ele teria que inserir uma idéia, alias o começo de uma ideia que depois cresceria na cabeça do filho de um concorrente, Robert Fisher (Cillian Murphy). Ai vem aquela velha historia: ah isso é impossível, isso nunca foi feito, e bla bla bla, tudo para exaltar o valor tecnico de Cobb, que diz que isso é sim possível. E como ele sabe disso, se ninguém nunca teve êxito? Simples, foi uma inception que ele fez em Mal que a levou a morte.
Golpe aceito, hora de montar o time. Ai vemos mais do mesmo em se tratando em filmes de golpe… os especialistas em whatever. Temos já Cobb como o grande especialista e mentor do golpe e temos Arthur como o responsável por levantar as informações pertinentes a respeito do alvo. Precisamos agora de alguém para criar os mundos. Ai entra Ariadne (Ellen Page), uma estudante de arquitetura que depois de descobrir o quão maravilhoso é poder criar em um mundo onde não há engenheiros de fundação e civis para ficarem falando que não ou que o custo seria alto demais. Também é necessario o falsificador, que nesse tipo de golpe é o responsável por assumir outras personas no subconsciente do alvo, o personagem Eames (interpretado por Tom Hardy) e também alguém responsável pela solução tecnica que faz o alvo dormir o sono dos justos, Yussuf (por Dileep Rao). O ultimo a entrar nessa turminha da pesada é Saito, afinal ele que esta investindo nisso e como não é possivel provas palpaveis a respeito do sucesso da empreitada, quer assistir tudo de camarote.
Todas as regras do universo dos sonhos é explicado a Ariadne e Saito, então fique ligadinho nos dois. E basicamente as regras são simples: crie o mais fiel possível a realidade fisica, mas evite sempre coisas conhecidas, pois é assim que você, arquiteto e sonhador (não são todos os arquitetos um bando de sonhadores?) sabe que não está na realidade. Ajuda também ter contigo um objeto unico, que só você conheça as características físicas, sempre ao seu lado para diferenciar o real do sonho. Você sente dor lá, mas não morre, só acorda.
Dream team montado, regras explicadas, então é hora de partir para a ação. Plantar uma idéia não é algo simples. Exige que você entre muito fundo no subconsciente do alvo e faça com que a idéia surja de modo mais natural possível. Pois a mente, essa linda, é esperta o suficiente para identificar o que é plantado e o que é natural. Para conseguir isso, Yussef cria um poderoso sedativo, que deixará a todos dormindo o tempo suficiente para que isso ocorra. De acordo com o filme, 10 minutos da vida real equivalem a 10 horas sonhando (ou algo assim, talvez fossem 2 minutos, whatever) e depois de muitas contas, levando em conta os sub-níveis do subconsciente que precisariam ser atingidos, x*y=ß, descobriram que poderiam ficar décadas (em tempos de sonho) na mente de Bob Fisher.
Chega o momento de entrar na mente do alvo e ai é onde todas as incongruencias do roteiro são escancaradas, mas tem algumas cenas tão legais que isso fica em segundo plano. Alias a bem da verdade, graças a essas incongruencias que a cena mais bacana do filme, no segundo nivel do subconsciente de Bob Fisher, acontece tendo Arthur como o grande protagonista. Nesse nivel é que também tem outra coisa legal, Ellen Page vestindo tailleur. Parece até uma criança brincando com as roupas da mãe awwwwnnnnn.
Mas como nem tudo são flores nessa vida de sonho, o subconsciente de Cobb é tomado de dor e culpa pelo que aconteceu a Mal. E isso se mostra no filme com a Mal se sempre se portando mal, tentando atrapalhar os planos. E isso leva a um dos maiores problemas do time… como eles estão sedados de forma poderosa, se eles morrerem no sonho eles não acordam, pelo contrario, são mandados para algo que Nolan chamou de limbo, o que ele diz se tratar de subconsciente em sua forma bruta (alô Platão, telefone para você). E isso significaria passar realmente décadas nesse lugar (em tempos de sonho) até que o efeito do sedativo passasse. Sedativo porrete esse, que te deixaria dormindo, exceto se seu ouvido interno detectasse uma mudança brusca de sua posição, como uma queda por exemplo (isso é verdade, quantas vezes não sonhamos que estamos caindo e acordamos de sobressalto por isso?). E quando isso acontece, a pessoa pode ficar biruta da silva se não conseguir controlar o que acontece lá… imagino que seja como estar em um sonho do Dali por décadas. Usando uma frase de Cobb: se torna uma alma velha em um corpo jovem.
Abaixo spoiler absurdamente forte. O derradeiro final.
É nesse lugar que acontece a redenção de Cobb. É lá onde estão os demonios de seu passado. É lá que ele vai encontrar Mal e tentar se livrar de vez dessa culpa. E é ainda abaixo desse nivel que ele vai encontrar a felicidade. Era meio obvio lá pelo 1/4 do filme do filme que ele ia acabar no mundo de Morfeu. O filme é clichê e esse é dos que ele não se furtaria. A unica surpresa foi ele não ter optado por ter Mal, em uma das cenas mais bonitas e com dialogos mais marcantes do filme. Optou por um simulacro da vida que seria a real. Pobre diabo, quando acordar depois de acabar o efeito do sedativo, vai ver que continua na merda e se Saito não estiver de bom humor, ainda vai ser enrabado na cadeia. Vale uma vida inteira vivida em sonho para depois acordar e ter o rabo comido pelos detentos e ser chamado de Sheila pelo companheiro de cela?
Mas todo esse rodeio para falar o seguinte: Chris Nolan recriou de modo muito engenhoso um dos clichês mais básicos do cinema: o filme de golpe. O filme é envolvente, a trilha bem colocada, os talentos em cena bem equilibrados, todos com sua chance de brilhar. Vale tranquilamente o preço do ingresso e da pipoca. Mas você não vai sair da projeção com a cuca fundida. Apesar de aparentemente intrincado o filme é simples, apenas usa recursos mais sofisticados. E é daqueles filmes que você assiste varias vezes por causa do apuro tecnico e não por diferentes visões do filme que você adquire após cada sessão.
E para terminar: enquanto os irmão Warchovisk (ou Whatever) criaram o bullet time o Nolan criou o van-falling-from-a-bridge-into-water time.

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