Hunf!!!

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Socorro, minha timeline está cheia de lixo!

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Eu sei que o hype do lixeirogate ja passou, todos ja falaram as besteiras que tinham que falar, mas agora após a poeira assentar é minha vez de falar besteiras.
Nunca vi tanto lixo no twitter em relação a um assunto sério como dessa vez e sim, isso é um trocadilho.

Primeiramente, o que o Boris Casoy falou: ridículo, vergonhoso e mostra muitíssimo bem as relações de classe no Brasil, uma coisa ainda bem “Casa-Grande e Senzala”. Olhando quando Gilberto Freyre escreveu e quanto tempo passou percebe-se que nossa evolução nesse sentido é, para usar um eufemismo, tímida. Ainda vivemos nas nossas casas-grandes e todos que nos servem nos pertence e como posse…

A questão sobre as palavras dele não são exatamente referentes a classe dos garis, mas sim como as pessoas vêem as outras menos favorecidas que ela. Não é uma questão de “um lixeiro desejando algo do alto de sua vassoura” e sim alguém “inferior” ao Boris Casoy desejando algo para ele.
Mas o que acontece é que desejos são invariavelmente ligados a condição social da pessoa. Para o gari um bom ano não tem a ver com viajar de primeira classe para Paris e se hospedar na melhor suite do Ritz. Talvez para o gari um ano de sucesso seja simplesmente não ficar doente, poder manter o emprego para garantir o sustento da família e ver o filho passar de ano na escola com boas notas.
O que eu posso dizer com toda certeza é que meus desejos para ano novo de 16, 17 anos atras quando eu levantava as 4:00  para pegar o trem para ir para o trabalho e as vezes ficava sem almoçar porque a marmita azedou são muitíssimos diferentes do meu conceito de um ano de sucesso hoje.

Mas como um lixeiro, no alto de sua vassoura, se atreve a desejar coisas boas para mim, que sou infinitamente superior a ele?

Pois é, como um lixeiro ousa desejar sucesso e paz para alguém do alto de sua vassoura… sera que ele não percebe o quão patético isso é já que na visão DE QUASE TODO MUNDO ele ser um lixeiro significa que ele não é nada, não conseguiu nada e por conseguinte não tem idéia de que seja sucesso.

Fica até complicado falar que é culpa do Topo Giggio já que ele deve ter crescido acreditando piamente nisso. Mas se levarmos em conta que ele justamente por ser Boris Casoy deveria ser bem mais esclarecido em relação a isso, bem o atenuante perde o valor.

Eu vejo diariamente pessoas tratando outras que as estão servindo com indiferença e até falta de educação. Algumas pessoas dizem que sou exageradamente educado. Pode até se que eu seja mas eu tento o máximo possível atingir o equilíbrio entre o educado e o pedante. E me orgulho de conseguir na maioria dos casos. Pode ser porque já estive do outro lado… já fui, metaforicamente falando, o gari falando do alto da vassoura e também ja trabalhei em atendimento a cliente. Não pessoalmente mas fui help desk do UOL. E aprendi muita coisa lá… era uma época que os scripts de atendimento existiam mas tínhamos total liberdade para batermos no cliente com a mesma potência que eles nos batiam, mas sempre sendo hiper educados.
Uma classica que sempre me lembro para sair de uma situação em que estou de algum modo atendendo alguém e ele esta estressadinho. Na central virava e mexia acontecia a seguinte situação:

Telefone toca, eu atendo:

- UOL Raul boa tarde, qual seu email por favor?
- FILHO DA PUTA

Claro que aquele não era o email dele, era um cliente puto porque a linha telefonica dele era um lixo e a gente tinha que fazer milagres criando strings para modem enquanto ele não conseguia acessar pornografia em baixa resolução.
Esperávamos alguns segundos, procurávamos no gescal se existia um email como esse (sempre existia) e voltávamos para o cliente:

- Senhor, para garantirmos a segurança de sua conta, precisamos verificar se filho da puta é realmente o senhor atraves de um processo de identificação positiva. Qual o nome da mãe do titular da assinatura?
- Tu tu tu tu tu tu

Por essas situações que vivi eu sei que ser cordial com quem me atende pode me garantir um resultado mais rápido e muitas vezes mais satisfatório.
E eu te pergunto: quantas vezes você é cordial com a pessoa que te atende? Quantas vezes você chegou no caixa do supermercado e disse “bom dia” e abriu um sorriso para a mocinha que esta lá trabalhando?

Isso me leva a outro ponto que gostaria de tocar aqui: li muito que ser gari não é opção, ninguém opta por ser gari, é ocupação e não profissão. O que eu concordo plenamente, mas isso não da o direito as pessoas a desmerecer os garis. De modo algum alias. Imagine sua vida sem os caminhões de lixo para recolher todo o lixo que você produz em um mês?Se com varrição as ruas de Recife ja são uma droga, imagine sem. Imagine a praia de BoaViagem sem o exercito de garis que passa por lá todo sábado e domingo a noite recolhendo tudo o que os imundos deixam para trás?

Mais uma vez pensando em relação de classes para essa situação e incluindo distribuição de renda, em países realmente civilizados um gari não ganharia tão menos quanto um advogado, um medico ou um analista de TI como eu. Não porque ganharíamos todos pouco, mas porque todos ganharíamos o suficientemente bem. Claro que para profissionais com curso superior há uma diferença de salários… 3x, 4x mas não como aqui que chega a ser 10x, 15x. Sem ser marxista ou algo do gênero, mas não precisa ser para admitir que essa diferença é algo vergonhoso. Claro que também li muita gente falando que os garis em suas respectivas cidades ganhavam R$ 2500,00 e tal mas quão nojento é a pessoa saber que essa é a exceção e colocar como a regra?

Agora um ultimo ponto, era para ser um post pequeno mas já virou uma tese de sociologia isso aqui: Dizer que garis são facilmente substituídos e profissionais habilitados não é de uma ingenuidade abissal. Todos são facilmente substituídos em qualquer profissão. Claro que não estou falando de referencias em suas áreas de atuação e sim de profissionais regulares. Ja vi profissionais super confidentes que teriam seus empregos garantidos ad eternum por serem especialistas em determinados aplicativos que geriam literalmente milhões de dolares de empresas serem substituídos por indianinhos que custavam 1/8 do que ele. Para isso que existe documentação.

Resumo da opera: se você defendeu o que o escroto do Topo Giggio falou de algum modo arrumando justificativas estúpidas você é um tremendo de um babaca e nem de longe evoluído como você acredita.

O pedido de desculpas do Casoy você vê aqui. Sim, aqui em baixo, timido, sem graça e sem vontade como o proprio pedido.

PS: A relação que fiz com “Casa-Grande e Senzala” foi uma extrapolação de um conceito. Não me venha com charumelas e querer tratar esse texto como “o grande exemplo de mau uso da obra de Gilberto Freyre” nem despejar um real tratado de sociologia sobre minha cabeça. Use o formulario de comentário e me ensine, debata… não tenho medo de aprender e nem de corrigir.

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Autor: Raul

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